O intelectual e o mundo

Se a vida intelectual não proporcionar algum tipo de isolamento é sinal que não é tão intelectual assim, afinal, alguém que se preocupe com temas que a maioria das pessoas sequer têm ideia que existem não pode pretender gozar de uma vida social plena. É impossível evitar que o esforço para compreender assuntos que, aos olhos comuns, aparentam ser absolutamente inúteis e gastar tempo com conhecimentos que não produzem nada palpável, seja visto como algo prosaico e seu sujeito tratado como normal.

Carregar livros, em uma sociedade que aprendeu que o valor de cada coisa mede-se por sua utilidade tangível, pode até merecer algum destaque, até mesmo um elogio não efusivo, mas não impede que o vejam como um excêntrico que joga fora o melhor desta vida por algumas letras em papel. E se o intelectual tem a ousadia de compartilhar aquilo que aprendeu com seus mestres mortos, começa a abusar do direito à excentricidade permitida pelos comuns. Uma coisa é gostar de enfadar-se com as besteiras publicadas, outra é achar que tem o direito de incomodar os mortais com isso.

É impossível, portanto, impedir que haja um certo afastamento do intelectual em relação ao restante da sociedade. Se as pessoas que o cercam não demonstram nem um pouco de interesse por aquilo que lhe apraz e lhe dá sentido, esperar que haja perfeita harmonia entre ambos é de uma inocência incrível.

E apesar da inevitável tensão que existe entre o intelectual e o mundo que o cerca, cabe a ele, assumindo a posição que seu status lhe oferece, fazer algo que o aproxime da humanidade, ainda que ela não esteja tão excitada por tê-lo por perto. Afinal, se é ele quem tem acesso às grandes idéias, à sabedoria que os grandes homens compartilharam e se é ele que se dispõe a compreender a realidade, então cabe também a ele agir de maneira superior ao homem comum. E por mais que a reação das pessoas ante ao seu interesse pelas coisas da inteligência seja, por vezes, até hostil, é obrigação de quem se dispôs a viver além do trivial mostrar que suas leituras não são em vão.

Não que o intelectual deva ceder às superficialidades, nem abandonar seus interesses em favor de um mundanismo vazio, que apenas agrada quem dele se alimenta. No entanto, se seu esforço pela compreensão da vida não lhe propiciar uma capacidade de aproximação mesmo junto aqueles que não entendem seu papel, então tanto estudo não serve para muita coisa.

 

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A universalização da experiência pessoal

Um dos erros básicos de raciocínio, que eu vejo uma infinidade de pessoas cometendo, é a universalização da experiência pessoal. Fulano toma algo que aconteceu com ele e disso tira a teoria para todos as outras situações similares. Bastou ele ter um patrão injusto e já toma todos os patrões por injustos, foi só tomar um chifre da mulher e toma todas as mulheres por infiéis. Inclusive, eu mesmo poderia estar universalizando isso que observei, se não fosse o fato de ver a situação ocorrendo o tempo todo e com tanta gente, além de ter lido em outros autores a mesma observação, que já é possível dizer que trata-se de uma verdadeira epidemia.

Se levarmos em conta que as experiências dependem ainda da interpretação que cada um dá a elas, temos então uma infinidade de teorias baseadas não apenas no que cada um viveu, mas na interpretação que cada um deu a determinada situação. É o império do subjetivismo a todo vapor!

Tal equívoco de pensamento tem sido a base de diversas teorias que são vistas por aí. De doutrinas religiosas a concepções políticas, poucos se esforçam por absterem-se, ainda que temporariamente, de suas experiências mais imediatas, para prestarem um pouco mais de atenção ao que acontece com outras pessoas e assim tirar suas conclusões de maneira mais embasada e sólida. Não! Preferem já defender que as coisas são de tal maneira exatamente porque elas mesmas experimentaram aquilo como a descrevem.

Tal erro é ainda alimentado por uma característica dos nossos tempos, que é a exaltação exacerbada do sentimento pessoal. Em um mundo que aprendeu a valorizar a expressão íntima do indivíduo em detrimento dos dados que lhe são oferecidos desde fora e desde antes, como dos seus antepassados, acreditar que sua percepção diante de um fato representa uma verdade universal não é nenhuma surpresa.

Então, o que temos é uma infinidade de pessoas, com uma infinidade de experiências, dando uma infinidade de interpretações, causando uma infinidade de teorias. Não é à toa que aparece uma nova solução para cada situação a cada nova semana. As prateleiras das livrarias entopem-se disso. As redes sociais, então, transbordam.

 

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A beleza da inteligência 

Um estudioso é, antes de tudo, humilde. O mero ato de abrir um livro subentende o reconhecimento ou, no mínimo, a esperança de que o autor tenha algo para lhe ensinar.

Além do que, se ele estuda é porque reconhece que precisa aprender e o ato de se abrir para o conhecimento disponível é de uma beleza indescritível.

Por isso, acho a afetação de quem se considera inteligente uma estupidez. Um pretenso intelectual arrogante, que se coloca diante dos outros como um superior, dá a prova cabal de que seu coração está posto no lugar errado.

Quem mais estuda mais aprende que há um infinito de coisas ainda a se saber. Um verdadeiro scholar tem plena consciência que por mais que conheça, existe muito mais a se conhecer, o que deveria obviamente torná-lo humilde diante dessa realidade.

Não que ele precise ser um bruto ou fingir que nada sabe. Longe disso! Sua postura deve ser de alguém que sabe exatamente sua posição, sem valorizar-se além do que realmente vale, nem desvalorizar-se como se não possuísse valor algum.

Na verdade, a beleza da inteligência está em não ser afetada a ponto de se tornar uma caricatura, nem rústica a ponto de parecer óbvia. Basta ser autêntica. Aí está seu encanto. Nisto reside sua formosura.

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