A universalização da experiência pessoal

Um dos erros básicos de raciocínio, que eu vejo uma infinidade de pessoas cometendo, é a universalização da experiência pessoal. Fulano toma algo que aconteceu com ele e disso tira a teoria para todos as outras situações similares. Bastou ele ter um patrão injusto e já toma todos os patrões por injustos, foi só tomar um chifre da mulher e toma todas as mulheres por infiéis. Inclusive, eu mesmo poderia estar universalizando isso que observei, se não fosse o fato de ver a situação ocorrendo o tempo todo e com tanta gente, além de ter lido em outros autores a mesma observação, que já é possível dizer que trata-se de uma verdadeira epidemia.

Se levarmos em conta que as experiências dependem ainda da interpretação que cada um dá a elas, temos então uma infinidade de teorias baseadas não apenas no que cada um viveu, mas na interpretação que cada um deu a determinada situação. É o império do subjetivismo a todo vapor!

Tal equívoco de pensamento tem sido a base de diversas teorias que são vistas por aí. De doutrinas religiosas a concepções políticas, poucos se esforçam por absterem-se, ainda que temporariamente, de suas experiências mais imediatas, para prestarem um pouco mais de atenção ao que acontece com outras pessoas e assim tirar suas conclusões de maneira mais embasada e sólida. Não! Preferem já defender que as coisas são de tal maneira exatamente porque elas mesmas experimentaram aquilo como a descrevem.

Tal erro é ainda alimentado por uma característica dos nossos tempos, que é a exaltação exacerbada do sentimento pessoal. Em um mundo que aprendeu a valorizar a expressão íntima do indivíduo em detrimento dos dados que lhe são oferecidos desde fora e desde antes, como dos seus antepassados, acreditar que sua percepção diante de um fato representa uma verdade universal não é nenhuma surpresa.

Então, o que temos é uma infinidade de pessoas, com uma infinidade de experiências, dando uma infinidade de interpretações, causando uma infinidade de teorias. Não é à toa que aparece uma nova solução para cada situação a cada nova semana. As prateleiras das livrarias entopem-se disso. As redes sociais, então, transbordam.

 

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A beleza da inteligência 

Um estudioso é, antes de tudo, humilde. O mero ato de abrir um livro subentende o reconhecimento ou, no mínimo, a esperança de que o autor tenha algo para lhe ensinar.

Além do que, se ele estuda é porque reconhece que precisa aprender e o ato de se abrir para o conhecimento disponível é de uma beleza indescritível.

Por isso, acho a afetação de quem se considera inteligente uma estupidez. Um pretenso intelectual arrogante, que se coloca diante dos outros como um superior, dá a prova cabal de que seu coração está posto no lugar errado.

Quem mais estuda mais aprende que há um infinito de coisas ainda a se saber. Um verdadeiro scholar tem plena consciência que por mais que conheça, existe muito mais a se conhecer, o que deveria obviamente torná-lo humilde diante dessa realidade.

Não que ele precise ser um bruto ou fingir que nada sabe. Longe disso! Sua postura deve ser de alguém que sabe exatamente sua posição, sem valorizar-se além do que realmente vale, nem desvalorizar-se como se não possuísse valor algum.

Na verdade, a beleza da inteligência está em não ser afetada a ponto de se tornar uma caricatura, nem rústica a ponto de parecer óbvia. Basta ser autêntica. Aí está seu encanto. Nisto reside sua formosura.

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A universidade é mesmo necessária?

A universidade é mesmo necessária? É válido o sacrifício de deixar boa parte das próprias economias e muito do suor e energia para algo que promete abrir as portas do mundo inteiro, mas entrega muito menos até daquilo que seria sua obrigação?

Há tempos, ao menos no Brasil, a universidade deixou de ser o principal local de difusão do conhecimento. Aquela ideia da academia, onde se encontram os gênios e de onde sai a elite pensante de um país, se tornou apenas um símbolo, uma intenção, mas que já não representa, de maneira alguma, a realidade.

As faculdades se tornaram meros centros profissionalizantes que se, ao menos, entregassem para o mercado bons profissionais, estariam ainda cumprindo um papel de alguma relevância. Porém, nem isso elas fazem mais. Se tornaram meramente uma exigência formal para determinadas profissões e um requisito habitual para boa parte das empresas. Na prática, porém, se tornaram incapazes de habilitar as pessoas para o que há de mais rasteiro: cumprirem seus papéis básicos de proletários.

Além disso, a ampliação da oferta de cursos superiores tirou da universidade sua característica mais marcante: de ser o centro de uma elite pensante, de onde deveriam sair os líderes da nação. Agora, o que resta é apenas a massificação do ensino, a democratização do pensamento, igualando nos níveis mais baixos todos os alunos.

Além disso, há a notória infiltração ideológica, que além de diminuir a importância das questões mais elevadas, prioriza a propaganda, o discurso que corrobora a visão política, tornando o ambiente acadêmico além de pobre intelectualmente em um campo onde professores tentam usar seus alunos como massa de manobra em favor de sua ideologia.

Diante disso, urge refletir sobre a real necessidade de se entregar por anos a um curso universitário. Até que ponto vale a pena despender tanto dinheiro, tempo e energia em algo que provavelmente não corresponderá ao investimento feito?

Pode ser que, em determinadas circunstâncias, fazer uma faculdade seja realmente necessário. Porém, quem tiver que trilhar por esse caminho deve fazer isso consciente da realidade. Ninguém deve ingressar em uma universidade esperando dela a absorção de extenso conhecimento, nem o encontro de um ambiente intelectualmente superior.

Na verdade, para quem for realmente estudioso, se não tomar cuidado, a faculdade pode mais atrapalhar que ajudar.

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A entrega exigida do autor intelectual

escritor-sofrendoPara empreender uma vida intelectual produtiva, muita concentração é exigida. Não apenas aquela atenção necessária para o momento da produção, mas uma consciência quase intermitente das razões fundamentais e dos objetivos buscados. Como o trabalho intelectual, quase nunca, é fruto de um átimo, não basta separar momentos de isolamento e dedicação exclusiva, mas é preciso que a matéria da qual trata esteja constantemente na mente do autor. … Leia mais

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Radicalismo sem profundidade

radicalismoHá aquelas pessoas que nunca tiveram qualquer contato com as doutrinas e teses que povoam o ambiente cultural. Existem, porém, outras que se debruçam sobre os temas, tentando entender o máximo que puderem sobre o que estudam. E, ainda, há aquelas que conhecem um pouco o assunto, estudam o mínimo possível sobre ele, leem algo aqui e ali e sabem se situar mostrando que entendem o necessário para, pelo menos, dar a impressão de que conhecem o que estão falando, sem, de fato, se esforçarem em um aprofundamento em relação ao que está diante de seus olhos. Os primeiros costumam simplesmente ignorar a existência da coisa, o que a torna como algo fora de seu universo de interesse. Os segundos, por seu lado, tendem a, quanto mais se aprofundam, encontrarem mais questionamentos que respostas, descobrindo, assim, que a verdade pode ser bem complexa. Porém, é entre os últimos que se encontram grande parte daqueles que se tornam protetores incondicionais de um ensinamento, paladinos histriônicos de uma doutrina, guerreiros enérgicos em favor de um pensamento. A verdade é que os mais barulhentos defensores de uma ideia são normalmente aqueles que sabem só um pouco sobre ela.

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Excitação intelectual

aula-de-argumentacaoQuando termino minhas aulas de Argumentação, dentro de meu curso de Oratória, fico incrivelmente excitado mentalmente. Trabalho, ao mesmo tempo, com cinco, seis até sete alunos tratando cada um de um tema diferente e eu orientando cada um individualmente. Isso, em vez de me cansar, me desperta de forma espetacular. Na verdade, somos preguiçosos e não acreditamos na capacidade que temos. Se nos déssemos chance de explorar mais nossa força cognitiva, confiando um pouco mais na memória, no raciocínio e na intuição, conseguiríamos fazer mais do que ordinariamente fazemos. Há muito tempo exercito meu cérebro em minhas atividades, mas nessas aulas descobri que é possível ir além. Descobri que trabalhar em alto nível intelectual pode ter efeitos fortemente excitantes. A sensação deve ser melhor que o uso de drogas sintéticas, com a vantagem de não deixar aqueles efeitos colaterais de torpor e culpa que acompanha os drogados. Usar o cérebro dessa maneira é demais prazeroso e as pessoas deveriam tentar experimentar mais disso. Talvez descobrissem que o prazer não reside apenas naquelas atividades mais animalescas, onde quase todos buscam sua alegria.

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Morte do espírito científico

estante-de-livrosO espírito científico, se é que um dia existiu, morreu! Aquela distância necessária ao debruçar-se sobre um tema, de onde o estudioso analisa os fatos, observa os dados e tira disso suas conclusões estreitou-se enormemente. Estão todos defendendo algo, são paladinos de alguma fé, de uma ideologia ou mesmo de uma preferência qualquer. Parece até que aquela ideia de que tudo nesta vida é política é verdadeira. Na verdade, esta, que é uma concepção puramente marxista, impregnou-se no inconsciente coletivo e, de alguma maneira, tem justificado o partidarismo científico, religioso e intelectual. Sendo assim, a sociedade perde muito, pois como confiar em cientistas, filósofos e historiadores que têm como principal objetivo defender aquilo que já escolheram de antemão?

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O esforço necessário ao exercício intelectual

esforco-intelectualEm uma cultura como a brasileira, tão avessa às questões mais elevadas, o empreendimento intelectual costuma ser visto como uma forma fácil de se viver, que não exige esforço, que não resulta em suor. As pessoas tendem a valorizar o esforço físico, vendo este como verdadeiro trabalho, enquanto quem passa o dia atrás de uma mesa, ainda que seja escrevendo uma enciclopédia, não tarda a ser chamado de sedentário. … Leia mais

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