O problema da concentração nos estudos

Muito do problema da inteligência se encontra na concentração. Às vezes, mais do que ter a capacidade de guardar os dados, é preciso ter a capacidade de absorvê-los adequadamente, e isso significa não permitir que elementos externos criem ruídos durante esse processo.

Isso porém não significa que o silêncio absoluto seja suficiente para garantir a melhor absorção intelectual seja do que for. Isso porque muitos dos ruídos não vêm exatamente de fatores ambientais, mas surgem do próprio cérebro de quem está tentando estudar.

Aprender como manter a mente exclusivamente direcionada para um único objeto é o grande desafio de qualquer intelectual. E, apesar de haver diversas técnicas que são apresentadas ao público periodicamente, ensinando como desenvolver a capacidade de concentração, não há nada que mantenha alguém mais absorto em um assunto qualquer do que o interesse, ou seja, do que o amor pelo tema.

A consideração da intenção construtiva como método de estudo da História

Meu método, ao estudar história, consiste em considerar que os objetivos dos grandes personagens são, em sua maior parte, positivos. Como positivo, porém, eu não quero dizer que são bons ou que queiram o bem, mas sim que pretendem alcançar algo, e não apenas destruir. Aspiram algo melhor, ainda que este melhor exista apenas dentro de suas cabeças.

Isso não quer dizer que, por esse método, devo ignorar as atrocidades cometidas no desenrolar histórico. Muito pelo contrário! Porém, assumo, em meus estudos, que, mesmo essas atrocidades, invariavelmente, possuem elementos de intencionalidade construtiva, ainda que seja a construção do Inferno na Terra. O fato é que considerar essa intencionalidade ajuda muito a entender os movimentos históricos.

Mesmo crápulas como Stálin, Hitler ou Napoleão, apesar de toda frieza e crueldade demonstradas, possuíam objetivos que não visavam apenas a destruição pura e simples, mas ansiavam pela implementação de algo, ainda que este algo houvesse sido forjado em suas mentes doentias. É isto que eu chamo de aspecto construtivo da intencionalidade do personagem histórico, ou seja, aquilo que ele pretende concretamente alcançar.

A questão é que eu não considero descrições como psicopatia, maldade, crueldade ou mente criminosa suficientes para permitir a compreensão dos fatos em seus significados mais amplos. Elas podem até ajudar nesse entendimento, como fatores explicativos de atitudes, porém, quando tomadas como causas principais, tornam-se meros simplismos, que pouco colaboram para que o fato histórico seja entendido.

Ao usar, portanto, o método da consideração das intenções positivas, deixando as subjetividades, os interesses particulares e os caracteres pessoais em um segundo plano, sem ignorar, é óbvio, sua importância, sabendo que eles possuem força suficiente para causar grandes movimentos históricos, meu objetivo é procurar, o máximo possível, entender quais eram as ideias e os valores que sustentaram e facilitaram mesmo os atos mais vis e as atitudes movidas pelos interesses mais mesquinhos.

O pressuposto basilar desse método é que não há ato relevante na história que não tenha sido sustentado por intenções supostamente superiores que justificassem as perdas provenientes dele e ajudassem a que, em determinado momento, fosse aceito por uma quantidade considerável de pessoas.

A verdade é que a consideração dessas intenções, em uma análise inicialmente menos valorativa, é o que permite mergulhar nas mentes dos personagens históricos e, com isso, se aproximar de uma compreensão mais fiel das razões e dos motivos que propiciaram que os fatos ocorressem da maneira como ocorreram.

De fato, aplicar este método tem uma certa relação com a necessidade de entender a cabeça do inimigo, quando se pretende melhor combatê-lo. No caso do historiador, talvez não se trate exatamente do inimigo, mas de um personagem histórico que, para ser melhor compreendido e interpretado, precisa ter sua mente investigada de uma maneira mais imparcial, em princípio. A ideia é bem compreender antes para julgar somente depois.

De qualquer forma, tudo isso não significa que seja possível, ou mesmo necessário, tentar fazer uma análise completamente isenta da história. Porém, estou certo que é impossível entender qualquer fato dela sem antes fazer um esforço para compreender a forma de pensar de seus atores.

A inteligência limitada

A inteligência normal analisa os fatos e as ideias e daí tira os conceitos. A inteligência limitada, que, aliás, adora emitir opiniões, já tem os conceitos todos formados em sua cabecinha e, a partir deles, interpreta a realidade.

Ainda que se diga que as coisas são de tal e tal maneira, ela não consegue entender, pois a descrição, por mais exata que seja da realidade, não coaduna com as frases, os slogans e as nomenclaturas pelos quais ela aprendeu a enxergar tudo.

Para essa inteligência atrapalhada, o outro está errado, não por alguma falha lógica que tenha cometido, mas, simplesmente, porque as ideias dele não se encaixam no fantástico mundo projetado por ela.

A explicação forçada dos cientistas

Algo que me soa bastante irritante é a insistência dos novos cientistas de interpretar todo comportamento humano com base em uma suposta evolução. Observam algo que as pessoas fazem hoje e dizem que isso é fruto de um processo adaptativo iniciado nos primórdios. Li, por exemplo, que somos invejosos porque nos tempos das cavernas isso era uma forma de sobreviver ao ver que o caçador vizinho havia conseguido um pedaço de carne maior. Como é possível saber isso, senão por um exercício de imaginação? E, convenhamos, esta não é uma atitude nada científica.

Não quero negar que haja algum processo de adaptação. Não tenho os dados para isso, como ninguém tem para confirmá-lo. No entanto, essa explicação “ex post facto” me parece mais uma forma de forçar uma explicação convincente, ainda que ela não esteja disponível. É fruto desse problema que as pessoas têm de aceitarem que há coisas que, ainda que temporariamente, não podem ser entendidas.

O hábito de repetir as leituras

As pessoas costumam ler, mesmo os bons livros, apenas uma vez na vida. Agem assim porque entendem que uma leitura é suficiente para absorver o que o livro tem para oferecer. A consequência, no entanto, é que acabam desperdiçando muito do que o livro pode dar.

isso porque somos pessoas muito diferentes nas diversas fases que passamos nesta vida e se, nessas diferentes fases, repetíssemos as leituras que fizemos nas anteriores, teríamos perspectivas bem diversas daquelas que tivemos antes.

A cada período de nossa vida temos conhecimentos novos que se acumulam, experiências que se sucedem e, para aqueles que têm um impulso filosófico, reflexões e insights que periodicamente se apresentam. Sendo assim, seria mesmo impossível interpretar as mesmas leituras da mesma maneira sempre. É outra cabeça que está pensando sobre o livro, são ouros olhos que o veem.

É por isso que a Bíblia e os grandes livros devem ser lidos de novo, de tempos em tempos. Afinal, nunca é o mesmo homem que os lê.

 

Rebuscamento afetado

A mente confusa, principalmente quando seu portador possui algum tipo de cultura literária, torna-se uma fonte inesgotável de palavras grandiloquentes, porém sem nexo. A pomposidade da expressão acaba por servir de película protetora sobre a falta de consistência daquilo que se está tentando dizer. De maneira paradoxal, é exatamente esse rebuscamento afetado que torna tudo tão inacessível e, ao mesmo tempo, misterioso, como se fosse algum tipo de sabedoria esotérica, fazendo com que seus autores sejam cultuados como representantes de uma inteligência superior. E essa prática vai se retroalimentando, de tal forma, criando uma elite de estúpidos orgulhosos, que se torna cada vez mais difícil encontrar as possíveis pérolas que possam existir em meio a tanto esterco publicado. No fim das contas, a intelectualidade acadêmica acaba servindo apenas para esconder o que pode haver de verdadeiro conhecimento dentro das universidades e no mundo científico, prestando-se ao papel exatamente contrário para o que existe. Seria muito melhor se fossem mais humildes e seguissem o conselho de Mark Twain: “Se você não tem nada a dizer, não diga nada“.

O intelectual e o mundo

Se a vida intelectual não proporcionar algum tipo de isolamento é sinal que não é tão intelectual assim, afinal, alguém que se preocupe com temas que a maioria das pessoas sequer têm ideia que existem não pode pretender gozar de uma vida social plena. É impossível evitar que o esforço para compreender assuntos que, aos olhos comuns, aparentam ser absolutamente inúteis e gastar tempo com conhecimentos que não produzem nada palpável, seja visto como algo prosaico e seu sujeito tratado como normal.

Carregar livros, em uma sociedade que aprendeu que o valor de cada coisa mede-se por sua utilidade tangível, pode até merecer algum destaque, até mesmo um elogio não efusivo, mas não impede que o vejam como um excêntrico que joga fora o melhor desta vida por algumas letras em papel. E se o intelectual tem a ousadia de compartilhar aquilo que aprendeu com seus mestres mortos, começa a abusar do direito à excentricidade permitida pelos comuns. Uma coisa é gostar de enfadar-se com as besteiras publicadas, outra é achar que tem o direito de incomodar os mortais com isso.

É impossível, portanto, impedir que haja um certo afastamento do intelectual em relação ao restante da sociedade. Se as pessoas que o cercam não demonstram nem um pouco de interesse por aquilo que lhe apraz e lhe dá sentido, esperar que haja perfeita harmonia entre ambos é de uma inocência incrível.

E apesar da inevitável tensão que existe entre o intelectual e o mundo que o cerca, cabe a ele, assumindo a posição que seu status lhe oferece, fazer algo que o aproxime da humanidade, ainda que ela não esteja tão excitada por tê-lo por perto. Afinal, se é ele quem tem acesso às grandes idéias, à sabedoria que os grandes homens compartilharam e se é ele que se dispõe a compreender a realidade, então cabe também a ele agir de maneira superior ao homem comum. E por mais que a reação das pessoas ante ao seu interesse pelas coisas da inteligência seja, por vezes, até hostil, é obrigação de quem se dispôs a viver além do trivial mostrar que suas leituras não são em vão.

Não que o intelectual deva ceder às superficialidades, nem abandonar seus interesses em favor de um mundanismo vazio, que apenas agrada quem dele se alimenta. No entanto, se seu esforço pela compreensão da vida não lhe propiciar uma capacidade de aproximação mesmo junto aqueles que não entendem seu papel, então tanto estudo não serve para muita coisa.