A humildade necessária para aprender

Em meus cursos já me deparei com alunos de vários tipos. Há aqueles interessados, também os que parecem que nem sabem o que estão fazendo ali, os atentos e os que dormem nas aulas, os participativos e os atenciosos. Porém, um tipo que, apesar de não ser maioria, de maneira alguma, sempre se faz presente, é aquele que eu chamo de douto desconhecedor.

Esse tipo é representado por aquele aluno que, claramente, possui algum conhecimento do assunto, porém, além de ser um conhecimento limitado, é defeituoso. Normalmente, o que sabe é baseado em frases feitas, que pouco ou nada acrescentam ao aprofundamento da matéria. Ele sabe de tudo um pouco, no entanto, mesmo esse pouco é superficial.

Por consequência de seu conhecimento limitado, que, obviamente, o impede de perceber o quanto lhe falta para aprender, acredita que tudo o que sabe abarca toda a realidade. Por não ter consciência do que lhe falta, se convence de que o seu cabedal de informações abrange todos os assuntos importantes.

Se o que sabe alcança tudo, é evidente que acredita que o que diz tem importância vital. Por isso, quando fala, assume um ar professoral, se dirige mais aos outros alunos do que ao professor e destila seu arsenal de informações como se fossem a última verdade das matérias tratadas. Quando pede um aparte, dificilmente faz uma pergunta, mas quase sempre um comentário, que tem por objetivo complementar o que o professor disse ou, ainda, expor o seu ponto de vista, que ele considera de suma importância para todos que o escutam.

O problema para um aluno desse tipo é que ele tem dificuldade de absorver o que lhe está sendo ensinado. Isso porque ele não acredita que está aprendendo algo, mas apenas compartilhando. O professor, para ele, não é alguém que lhe ensina, mas apenas mais um participante de sua discussão. Pior, se o professor apresenta uma ideia que se confronta claramente com algum entendimento seu, a tendência desse aluno é fechar-se a esse conhecimento.

Descrevi esse tipo de aluno para que você entenda a importância da humildade para o estudante cristão sério. Ele não pode ingressar em suas atividades intelectuais dessa maneira pedante, sob pena de desperdiçar oportunidades de conhecimento. Quem não se dispõe a ouvir o que os outros têm a dizer está condenado a viver, perpetuamente, em seu mundo pequeno e hermético.

O professor Olavo de Carvalho ensina que o estudante deve, ao ler um livro, mesmo os de Filosofia ou de Teologia, fazer isso como se estivesse acompanhando uma peça de teatro. Quando assistimos uma encenação não discutimos com os personagens, nem criticamos a estória. Se quisermos aproveitar o enredo, devemos deixar que ele nos conduza. Apenas dessa maneira, poderemos sentir a emoção dos personagens, entender o sentido da narração, compreender a proposta do autor.

Ao ler um livro de Filosofia, por exemplo, o estudante deve deixar que o escritor o conduza. Não deve iniciar a leitura já com um pensamento crítico. Isso o impedirá de compreender a proposta do autor e impossibilitará de absorver suas ideias. O leitor somente consegue entender o que o pensador escreve quando se esforça para pensar como ele.

Uma amiga me perguntou, certa vez, como ela deveria ler um livro. Eu expliquei aquilo que o professor havia me ensinado, dizendo que ela deveria fazer isso em relação a qualquer autor que ela decidisse ler. Então, ela, assustada, me questionou: Mas, e se eu não concordar com ele? O que eu respondi, de pronto: E quem é você para não concordar com ele?

Eu apenas quis dizer que ela não poderia discordar de alguém sem sequer tentar compreendê-lo. E para fazer isso ela não poderia assumir uma postura pedante, de quem já sabe tudo e não tem o que aprender com quem quer que seja. Essa atitude preconceituosa é um impeditivo para se adquirir conhecimento e não condiz com alguém que realmente quer iniciar estudos sérios, do que quer que seja.

 

Deixe-se conduzir e não assuma uma posição crítica muito cedo. Adquira conhecimento, aprenda, compreenda e permita que as informações cheguem até você da maneira mais pura possível, a fim de que seu inventário de conhecimento seja preenchido com a verdade e não o engano.

 

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