Avaria cognitiva em teólogos e juristas

Há uma semelhança inconteste entre teólogos e juristas. Ambos, ao desenvolverem seus argumentos, não partem essencialmente da realidade, mas têm no que está escrito sua fonte primordial. Com isso, tratam as palavras, seja das Escrituras, seja do Direito positivo, como se fossem elas mesmas realidades.

Isso não seria um problema, desde que a noção de que as coisas são assim estivesse sempre à vista desses intérpretes da doutrina e da lei. No entanto, não é difícil vê-los confundindo a realidade com a letra.

Não poucas vezes vejo-os misturando as duas coisas, tratando aquilo que está escrito como se fosse a própria realidade, a ponto de ignorar a realidade mesma, como se ela não existisse. E quando a realidade se mostra mais evidente do que podem ignorar, submetem-na, de alguma maneira, à palavra escrita.

Isso, evidentemente, possui um grande potencial de confundir a mente da pessoa, criando um tipo de esquizofrenia intelectual, quando não fica bem claro o que é real e o que é ficção, e pior, tornando a ficção mais real do que a própria realidade.

É por isso que vejo tantos teólogos e juristas com sérios problemas cognitivos, com uma dificuldade muito grande de separar o que são fatos e o que é abstração e, no fim, interpretando aqueles somente sob a égide da letra.

Se tornam, assim, incapazes de interpretar a realidade pela percepção direta, sempre esperando a intermediação do que está escrito.

E isso, é claro, acaba sendo a causa de diversas distorções no pensamento.

Razão e método na pedagogia

Todo bom professor é, de alguma maneira, corrosivo. Sem o intuito de carcomer os vícios que se impregnam na alma discípula, sem querer consumir os empecilhos naturais que atravancam o conhecimento, não se faz verdadeira pedagogia. Esta clama por alguém que não se satisfaz com o que está, mas que possui a ânsia por mexer com o que existe dentro do aprendiz. Há o interesse pela matéria e o amor pelos alunos, mas o que move um verdadeiro mestre é sua paixão pela transformação humana, por ver que o indivíduo não é mais o mesmo depois de sua atuação.

Não acredito, portanto, em pedagogos que são meros mediadores entre os fatos brutos e a mente vazia. Nem que esta pode, por si mesma, desabrochar. Isso é ligar o nada a lugar nenhum. Apenas aprende quem já possui algo em si mesmo. Só compreende quem tem os fundamentos para isso. Se não houver, tudo o que for absorvido se tornará um amontoado de ideias, sem método, sem ordem, sem sentido.

E esses elementos fundamentais não são imanentes. Não que o homem seja uma tábula rasa, mas o que sabe naturalmente é insuficiente para, por si só, concatenar os dados que se lhe apresentam. O estado humano bruto não oferece as condições para que uma cultura tão complexa seja apreendida e entendida.

É preciso, portanto, lançar as bases, preparar o terreno para que se possa edificar a mentalidade capaz de decifrar os significados por detrás da multidão de informações que se lhe apresentam. Este é o papel do professor, esta é sua missão.

Mas isso não se faz apenas pela informação. Não é assim que o ser humano se forma. Uma pedagogia eficiente se dá, de fato, por duas vias, que se completam e se encontram: o professor lançando os alicerces, ao apresentar sua compreensão da realidade, e mostrando o caminho tomado para atingir o seu intento. Tudo, afinal, é uma questão de razão e método e exemplo! Isso é o que basta para estremecer o espírito educando.

Por isso, não acredito em apostilas, em grades curriculares, nem em cadeiras. Não que não tenham alguma utilidade, mas são insuficientes para um ensinamento profundo. Eu apenas acredito no acompanhamento, pelo aluno, de seu mestre. É testemunhando sua atuação, é entendendo como ele faz, é absorvendo sua experiência e conhecimento que se forma, na alma humana, o ambiente propício para uma vida intelectual.

O resto é apenas informação; e isso qualquer pedaço de papel é capaz de fornecer.

A dificuldade do ensino da Teologia sem identificação doutrinária

Se dispor a ensinar Teologia, de maneira livre, sem vinculações com doutrinas denominacionais específicas, mas baseado no estudo dos grandes pensadores, de todos os tempos, e na análise responsável das Escrituras, é um grande desafio. Faço isso já há alguns anos e, ainda que os resultados tenham sido os melhores, sempre há a dificuldade inicial de transpor a barreira da perspectiva própria de cada vertente cristã.

Normalmente, acontece assim: após o susto inicial, quando o aluno demonstra evidente estranheza com muito daquilo que está sendo ensinado, ele começa a entender que o meu objetivo não é apresentar uma doutrina, mas refletir sobre a verdade cristã, dentro do possível, como quem observa desde fora a construção doutrinária.

Meu objetivo, na verdade, é fazer com que o aluno entenda as razões que conduziram a determinado entendimento. Isso baseado no fato de que nenhuma doutrina surge do nada, mas da revelação, passando pela racionalização humana e pela interpretação inescapável. Mesmo a Tradição católica não tira seus dogmas do nada, mas suas doutrinas possuem uma rígida construção racional por detrás delas.

Essa forma de estudo, entendo eu, forja no aluno uma mente cristã fortalecida. Ao compreender as razões da fé, ele estará não apenas repetindo ensinamentos que recebeu das devidas autoridades, mas estará criando, dentro de si mesmo, uma consciência da verdade, que é mais importante e mais duradoura do que qualquer submissão.

A obediência é boa. Porém, obedecer, sabendo os motivos para tanto, é muito melhor.

De qualquer forma, sempre é um desafio ensinar Teologia dessa maneira, porque as pessoas não apenas têm convicções doutrinárias, mas desenvolvem uma afeição com a fé que professam que, cada vez que algo é dito que, mesmo que de forma meramente aparente, vá de encontro aos preceitos de sua denominação, é despertada nelas um senso de defesa apologética que, muitas vezes, as cega para razões coerentes que podem servir para esclarecer dúvidas.

Falar algo que pareça contrariar uma verdade estabelecida em seus corações é como agredi-las, como provocá-las. Por isso, apenas um aluno amadurecido, preparado para mergulhar nas verdades cristãs sem medo é que aproveita melhor o estudo. Por outro lado, aqueles que colocam sua afeição à frente da razão acabam não compreendendo bem o que está sendo ministrado.

Quem me acompanha sabe que, como professor, não tenho preferências doutrinárias. Tento estudar e entender todas e concluir quais me parecem mais compatíveis e coerentes com a revelação. Fazendo isso, eu sei que me arrisco a angariar antipatias de todos os lados, mesmo de vertentes cristãs antagônicas.

De qualquer forma, os alunos mais inteligentes, aqueles que realmente estão em busca de uma compreensão mais profunda da verdade cristã, conseguem entender meu método e aproveitam para, eles mesmos, mergulharem até o mais fundo possível do conhecimento cristão.

Se falo sobre muitas coisas é porque eu acredito em uma

Pode ser que você ache que o que eu escrevo se refere a muitas coisas diferentes e que, talvez, eu devesse focar mais em um assunto específico. É o Discursos de Cadeira, onde falo sobre política, comportamento, sociedade e tudo o me vem à cabeça, o NEC, onde trato de cristianismo e teologia, o Vida Independente, que é um blog sobre como desenvolver uma vida autônoma, o Liceu de Oratória, que é meu trabalho sobre comunicação, além de minha atividade como advogado. Para algumas pessoas, toda essa diversidade é muito dispersiva. Há quem prefira dedicar-se a um único tema e esmiucá-lo até seus últimos detalhes a saber sobre mais coisas, ainda que de forma menos obsessiva.

Eu até admiro quem consegue se debruçar sobre uma matéria durante muito tempo. Aliás, para ser um bom pesquisador este é um requisito essencial. No entanto, esta não é minha vocação. Eu necessito me alimentar de muitas coisas diferentes para me manter motivado e para não me entediar. Insistir em apenas um assunto se torna, para mim, maçante e é incrivelmente desestimulante.

Também, para continuar desenvolvendo minha criatividade e para que os insights continuem a ocorrer em minha cabeça, eu preciso me alimentar de vários inputs. O que me mantém ativo intelectualmente são as conexões diversas que eu mantenho, muitas aparentemente sem relação umas com as outras, mas que me fornecem material para eu pensar e escrever. São as diversas formas de ver o mundo que me permitem entendê-lo melhor e é essa confusão que me mantém em ordem.

No entanto, tudo isso só é possível porque, por detrás de toda essa aparente balbúrdia de pensamentos, existe uma unidade que abarca tudo e conecta todos esses assuntos. E é nisto que se encontra a grande aventura dessa viagem intelectual! O mais emocionante nisso é a busca por encontrar o sentido fundamental que sustenta todas as idéias, todos os temas, todas as disciplinas. No fim das contas, tudo está de alguma maneira ligado por uma Razão comum e nela têm seu sentido.

Pode ser que eu seja tido por eclético, mas toda essa variedade só é possível e só faz sentido porque eu possuo uma convicção muito sólida e um conhecimento muito definido sobre o Logos que sustenta tudo.

 

Curso de Teologia Essencial

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A Teologia é muito ampla, abarca vários temas e possui diversas ramificações. No entanto, existe um núcleo de ideias que é o suporte para todo o pensamento teológico e, quando não bem compreendido, faz com que muitas interpretações bíblicas e doutrinárias resultem equivocadas. Todo estudante de Teologia deveria, portanto, tomar conhecimento desse fundamento essencial, compreendendo de maneira definitiva e profunda o que e o cristianismo e o que ele propõe à humanidade. Só assim ele estará capacitado para aventurar-se em estudos diversos na área.

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Professor por vocação

Há os professores por profissão, que cumprem seus papéis, que são responsáveis, que gostam do que fazem e que até dão boas aulas. O mundo precisa deles. Se a maioria dos profissionais da educação fosse como eles, praticamente todos os problemas na área estariam resolvidos. Mas existe um grupo mais escasso, representado por poucos dentro do universo da pedagogia, e que não apenas oferece aulas satisfatórias dentro da matéria ministrada, mas torna o conhecimento dela algo altamente desejável.

Estes são os professores por vocação. A qualidade de suas aulas não está relacionada com o contra-cheque que recebem, nem com o nível de satisfação deles com o ambiente acadêmico onde estão inseridos. Sequer ela é afetada pelo seu humor. Isso porque, para um professor de vocação, o momento da ministração da aula é seu momento de redenção. Ali, ainda que temporariamente, seus problemas, seus anseios, suas frustrações e seus medos são deixados de lado, pois o que importa é a verdade transmitida, o assunto tratado.

Um professor vocacionado não é apenas alguém que despeja, burocraticamente, um conteúdo pré-determinado. É, de fato, um apaixonado. Mas sua paixão não está necessariamente ligada à matéria tratada e sim à possibilidade de compartilhá-la com seus alunos e fazê-los compreender as profundas razões daquilo que se trata.

Esse professor se realiza muito mais com o ensino do que com o elogio. Seu maior prazer é ver que aqueles que com ele aprenderam começam a dar seus primeiros passos desacompanhados. A verdadeira alegria de um professor por vocação é observar seus alunos mergulhando ainda mais fundo do que ele. E tal felicidade permanece, ainda que o próprio aluno não reconheça os méritos de seu mestre.

 

A humildade necessária para aprender

wpid-Photo-15072014-0912.jpgEm meus cursos já me deparei com alunos de vários tipos. Há aqueles interessados, também os que parecem que nem sabem o que estão fazendo ali, os atentos e os que dormem nas aulas, os participativos e os atenciosos. Porém, um tipo que, apesar de não ser maioria, de maneira alguma, sempre se faz presente, é aquele que eu chamo de douto desconhecedor.
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